04.12.2009 | Literatura |
Antígona deixa romance inacabado de Cossery no sapatinho
A editora faz as vezes de Pai Natal ao disponibilizar o início do «para sempre inacabado» Uma Época de Filhos de Cães, de Albert Cossery. O escritor faleceu em Junho de 2008, aos 94 anos.
O próprio Albert Cossery dizia que o seu ritmo de trabalho se limitava a «uma linha por semana». E é o conjunto de linhas do romance que o egípcio estava escrever quando morreu, aos 94 anos, que a Antígona acaba de disponibilizar online, traduzido por Luís Leitão e com revisão de Carla da Silva Pereira.
As primeiras páginas de Uma Época de Filhos de Cães foram escritas no hotel de Paris onde Cossery vivia há mais de seis décadas, e onde acabou por falecer, em Junho de 2008. O manuscrito foi encontrado no quarto e é agora divulgado pela editora lisboeta em formato digital com um laçarote de presente natalício. A edição em papel não está prevista.
A Antígona é também a responsável pela publicação de todas as obras de Cossery em Portugal – apenas oito em 60 anos (ele próprio se definia como «preguiçoso») –, estando todas ainda disponíveis em catálogo. Quanto ao novo manuscrito, o texto pode ser lido abaixo.
Uma Época de Filhos de Cães
Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto
sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia
lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem
que os olhos se lhe marejassem de lágrimas. A esta hora matinal, para além de
um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o
local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à
reflexão. Evidentemente, não estava nas suas intenções reflectir de novo sobre
a perenidade da estupidez humana, nem vituperar os lastimáveis dirigentes deste
mundo, pois todos estes indivíduos se encontravam há muito esgotados e não eram
merecedores de qualquer outra crítica mais aprofundada. Numa palavra, o que ele
desejava de imediato era um recanto tranquilo onde pudesse recordar – antes que
perdesse todo o sabor – o incidente burlesco que precipitara o seu despedimento
do lugar de professor de uma escola de um bairro popular da cidade costeira,
considerada histórica, a que chamam Alexandria. Tudo começara por uma discussão
sem motivo aparente com o director do estabelecimento escolar, um homem pleno
de ignorância e, ainda por cima, casado com uma mulher feia. Esta dupla
particularidade tornava-o detestável e intolerante nas suas relações com as
pessoas inteligentes e solteiras. Após algumas insinuações pérfidas acerca da
concupiscência ligada ao celibato, este gerador de crianças degeneradas
acusara-o de ter feito esquecer aos seus alunos, no espaço de alguns meses, o
que eles haviam demorado muitos anos a aprender. Mokhtar, nada surpreendido com
este elogio que considerava absolutamente merecido, não pôde resistir à
tentação de dar uma estocada definitiva e global na hierarquia, mesmo que esta
fosse de medíocre qualidade. Respondeu com um tom de comiseração, como se estivesse
a dar os pêsames a um viúvo amargurado, que os seus alunos tinham mesmo assim
aprendido uma coisa muito importante para o futuro: que o director desta escola
era um burro, e que era preciso substituí-lo por um burro de verdade,
certamente mais agradável de contemplar. Para qualquer espírito livre dos
preconceitos seculares de sacralização do homem, era evidente que tratar um
humano de burro constituía um insulto para o burro. Mas o director, incapaz de
assimilar uma doutrina tão audaciosa, pôs-se a gritar que um louco estava a
querer degolá-lo, atraindo com os seus berros uma matilha de salvadores
benévolos que agarraram Mokhtar e o atiraram, com as imprecações habituais,
para fora da escola.
A Mokhtar não desagradou esta expulsão brutal, que lhe conferia um estatuto de
dissidente político e de mártir da liberdade de expressão, capaz de suscitar o
interesse, para além dos mares, dos intelectuais dos ricos países democráticos.
Estes bravos pensadores, adeptos de um humanismo sem fronteiras, tinham a faculdade
de tornar célebre a pessoa mais insignificante do planeta, desde que esta
tivesse sofrido alguns vexames ou alguns meses de prisão por parte de um
governo qualificado, para a circunstância, de ditadura sangrenta. Esta ideia
divertia-o como uma enorme brincadeira. Por um momento, entreteve-se com a
perspectiva de um exílio dourado em terra estrangeira, solicitado e adulado por
todas as cabeças pensantes do hemisfério ocidental. Tratava-se, e ele tinha
consciência disso, de uma apoteose longínqua, e mesmo improvável, pela simples
razão de que o género de dissidência de que era o genial inventor nada tinha em
comum com uma oposição a qualquer governo. A Mokhtar todos os governos eram
completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das
armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos
malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar
diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar
indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de
combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe
de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica.
Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma
prova debilitante para a saúde. O seu combate contra a ignomínia reinante não
tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua
existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes,
mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião
e sem esperar uma autorização vinda do céu. Há muito tempo que Mokhtar decidira
que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus
miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis.
Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do
Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que
ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da
injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos
valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado
para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade. Os pobres
estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai
salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria
endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem
jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise,
aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos
sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de
parecer profundos. Três meses antes, quando se candidatou a este lugar de
professor, Mokhtar não ambicionava de maneira nenhuma ser profundo em matéria
de ensino. Professor era o emprego ideal para começar a pôr em prática a
destruição do discurso pernicioso habitual em todos estes continentes, cuja tradicional
impostura é proclamarem-se civilizados. Com efeito, a escola proporcionava-lhe
uma ocasião magnífica para influenciar jovens alunos, mais dispostos à
subversão do que os adultos anestesiados de longa data pelo vocabulário
dominante. A indignação do director deu-lhe a certeza de ter sido bem sucedido,
pelo menos em relação a uma parte ínfima da população, mas este magro resultado
representava uma carga explosiva, manipulada por três dezenas de adolescentes
dotados de uma consciência renovada, e que se preparavam para prodigalizar por
todo o lado o seu novo saber. Mokhtar via este bando de alegres missionários
crescer e disseminar-se por todos os países e, porque não, além-fronteiras em
direcção às tristes cidades do Sul moribundo.
A visão deste futuro mirífico foi bruscamente perturbada pelos latidos de um
cão que dava a impressão de ser de uma espécie rara, desconhecida no bairro.
Havia nestes latidos uma notável dose de insolência e como que um desafio
lançado contra sabe-se lá que raça maldita. Subjugado e seduzido por este
desempenho, Mokhtar dispôs-se a procurar o animal com a intenção de o adoptar,
caso ele tivesse fugido a um dono autoritário e mal-educado. A ideia de passear
com um cão pela trela enchia-o já de júbilo como um ataque subtil ao mito
insuportável da supremacia do homem. Pôs-se assim a inspeccionar a esplanada,
mas, em vez de um encontro amigável com um membro eminente da raça canina, foi
ofuscado por um esplendor de cores cambiantes sob os raios pálidos de um sol de
Inverno, bruscamente surgido de entre as nuvens, como que para participar neste
surpreendente espectáculo feérico. O responsável por esta intrusão excêntrica
da moda, símbolo da modernidade, no cenário imundo da esplanada, era um jovem
dos seus vinte anos, de físico atraente e porte aristocrático, sentado a uma
mesa à entrada do café, e que exibia uma panóplia vestimentar de grande ousadia
na escolha dos tecidos e das cores. Este jovem esteta envergara, para uma
visita turística nestas paragens deserdadas, calças de linho branco, camisa de
seda vermelha, bem aberta no peito, e casaco preto de caxemira, com um pequeno
ramo de jasmim na botoeira. Para completar este traje magnificente e
requintado, calçava sapatos de verniz, como os que usam os ministros e os
proxenetas quando vão à ópera. Mas as originalidades deste enviado do diabo não
se ficavam por aqui: estava a fumar um cigarro de haxixe, cujo fumo parado
desenhava uma espécie de auréola sobre a sua cabeça.
Perante esta cena inusitada, Mokhtar aguardou calmamente o que se ia passar a
seguir, estranhamente consciente de que este príncipe da elegância, perdido
neste lugar, tinha para lhe transmitir uma mensagem da mais alta importância.
Dir-se-ia que o portador da mensagem se apercebera desta expectativa e que
estava pronto para lhe responder, pois, sem mais delongas, abandonou a sua pose
descontraída, endireitou-se na cadeira, ergueu os olhos ao céu, e depois, com a
determinação do cantor que entoa a ária que o celebrizou, pôs-se a ladrar com
um tom implacável e obstinadamente sarcástico, parecendo assim exprimir a sua
raiva para com os habitantes da casa em frente. Passado um momento, parou com
os latidos e virou-se para Mokhtar, visivelmente satisfeito com a sua proeza.
Mokhtar aplaudiu discretamente para não acordar o homem adormecido no seu
banco, único elemento de realidade tangível que o impedia de ficar alarmado.
Sem qualquer dúvida, estes latidos continham um sentido oculto que ele tinha de
decifrar o mais rapidamente possível, mas o imitador de cães furiosos não lhe deu
tempo para isso ao desferir-lhe a seguinte frase insensata: – Estava certo de que compreenderias. – De onde vem essa certeza? – perguntou Mokhtar. – Gostaria muito de conhecer
as razões dela. O jovem pimpão, que se chamava Haydar, levantou-se para se ir sentar a uma mesa
junto de Mokhtar e começou a falar com um tom fortemente caloroso, como se
pretendesse cativar o seu interlocutor com vista a uma cumplicidade eterna. – Passava por aqui, guiado apenas pelo acaso, quando te vi sentado, sozinho,
neste café piolhoso. Mas, em vez da tristeza e do abatimento do solitário,
pairava nos teus lábios um sorriso muito especial, o género de sorriso
malicioso que é um desafio à infâmia universal. Sentias-te mais poderoso do que
algum monarca jamais foi. Isto levou-me a pensar que tinha obtido a tua
compreensão.
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