08.06.2010 | Música | Entrevista
«Uma coisa muito animalesca e primaveril»
O Dia do Rock está à porta: é já esta quinta-feira, dia 10, nos jardins do Instituto Superior Técnico, em Lisboa. O RASCUNHO conversou com as cinco bandas em cartaz: Feromona, Os Golpes, Os Capitães da Areia, Matilha e Orphelia.
Feromona
«Seattle ainda é inspiração»
Isto não é Hollywood, bebé é um lamento sobre a grandeza aparente
de Lisboa. Mas pode ser lido de outras duas formas: é uma crítica aos que vivem
à distância o sonho americano, ou uma reprimenda à lassidão portuguesa. Em que
ficamos?
Isto não é Hollywood porque isto é Desolíude. É um pouco de tudo isso que dizes. Há um lado de
(auto-)reprimenda e também uma expressão de conformismo indignado, digamos
assim. É perceber uma realidade que não é o que sempre sonhámos – mas que,
desde sempre, soubemos que esse sonho era apenas isso, uma ilusão. Mas é também
uma forma de «homenagear» (se é que se pode chamar-lhe isso) esse Olimpo
imagético made in USA. Porque, no
fundo, essas imagens dão-nos alento. Isto é um grande nó sentimental: adorar-se
uma ilusão, sabendo que é apenas ilusão, deixa-nos confusos. É compreender que
essa suposta realidade é um mundo paralelo, para além de nós. Desoliúde também
é gostar de brincar a esse mundo. Isto não é Hollywood... e é uma pena, porque
podia ser.
A ideia do sonho
americano vivido à distância afecta-vos directamente. Afinal, o grunge que vos
serve de matriz foi, apesar do seu amplexo global, um fenómeno muito
localizado. Seattle continua actual, ou já estamos noutro sítio?
Não sei se estamos noutro sítio. Sei que Seattle ainda é uma
inspiração. Não tanto – ou não apenas – pela música. Mas pelo imaginário, pela
iconografia. E pelo seu significado – o que começou por ser uma afirmação («a
cultura underground pode ser mainstream») acabou por revelar-se uma
ilusão. E, claro, uma desilusão. O grunge,
que foi o lugar dos que não tinham lugar, tornou-se um lugar-comum, a coisinha
mais cliché dos anos 90. O grunge é
absolutamente Desoliúde – e não o contrário, o que é curioso. Mas, voltando
atrás, há muitas Seattles por aí.
Desoliúde, o segundo álbum, ainda está
fresco. Como é que o público tem reagido a este trabalho?
Para já, tem reagido muito bem. Com uma
grande compreensão, aceitando o álbum como um todo, o que é importante para que
ele tenha valor. Desoliúde é um
objecto que parte de conceitos muito fortes. Cortado às fatias, torna-se
frágil. Mas, no seu total, ganha força. Contudo, acabou de sair, ainda pouca
gente reagiu. As críticas más hão-de chegar, tenho a certeza.
A
mudança para a Amor Fúria teve consequências na forma como estão a ser
recebidos agora? O caminho que percorreram com Uma Vida a Direito sofreu algum sobressalto?
Ainda é muito cedo para se poder fazer
uma comparação, uma avaliação do que está a acontecer. Mas há certas diferenças
em relação ao Uma Vida a Direito. A
questão da distribuição, da promoção, do próprio apoio que a Amor Fúria nos tem
dado, tudo isso é diferente do que sucedeu com primeiro disco. Depois há outras
coisas que são diferentes e cuja responsabilidade pode ser partilhada pela Amor
Fúria e por nós, Feromona. Por exemplo, a atenção que a imprensa e as rádios
nos deram, imediatamente a seguir à saída do disco. Aconteceu porque, por um
lado, é o nosso segundo disco, oficialmente nós já existíamos; por outro, ter
uma editora, ainda que pequena (mas cheia de garra, já agora), também facilita
a caminhada. Até porque há uma certa atenção em torno desta nova leva de
músicos e bandas. Éramos e somos próximos, até a nível pessoal, de muita gente
da Amor Fúria, da Flor Caveira e de outras bandas que, não estando nestes dois «grupos»
fazem parte da mesma «colheita». Mas, agora, essa proximidade foi formalizada.
Beneficiámos de alguma atenção extra graças a isso.
A concentração, em
poucas editoras, das novas bandas que fazem música em português resulta de
alguma atracção por feromonas? Afinal, é também o que sucede no Dia do Rock.
Aí está uma maneira de explicar o fenómeno que permanecera,
até agora, em segredo. Mas sim, tudo isto foi uma coisa muito animalesca e
primaveril. É de notar que, sem feromonas, o planeta podia muito bem chamar-se
Saturno e ficar a anos-luz de estranhas formas de música.
Os Golpes
«Cura para os nossos males e os dos outros»

A portugalidade está
na base do Dia do Rock. É algo que trabalham muito para além da língua. E no
entanto foram buscar o nome a França, a François Truffaut. O que buscam com a
intercepção?
O nome «Os quatrocentos golpes» identifica uma fase inicial
da banda em que a portugalidade não era uma questão tão à flor da pele e onde a
intercepção se podia justificar, ainda que inconsciente, pela atitude
introspectiva que a banda assumia. Coincidente com a entrada do Pedro da Rosa e o sentimento de
que queríamos ser uma banda, a questão de Portugal tornou-se ainda mais
consciente e reparámos que já não fazia sentido a ponte com o filme francês ser
tão explícita.
De facto não sentimos que terá alguma vez havido uma
intercepção, havia sim um nome que nos levava para um determinado imaginário
que com o decorrer do tempo passou a ser dominado pela construção do nosso
próprio imaginário, ingredientes que os quatro fomos trazendo. Não podemos
afirmar que «Os Golpes» não terão ainda algum desse mundo a preto e branco onde
rapazes de calções e camisolas de gola alta tem as suas aventuras e
desventuras. São histórias ou referências que fazem parte da nossa estrutura,
tal como tantas outras de tantos outros países. Parece-nos que se havia
intercepção, deveria ter deixado de haver com a simplificação do nome. Os
Golpes apenas buscam interceptar guitarras desafinadas, feedbacks não
intencionais e fruta de má qualidade.
Dizem-se «gerados por
uma pátria ausente» e, ainda assim, há a paternalidade de uma certa música
portuguesa. A encenação que propõem serve para relevarem características do
vosso olhar sobre o mundo, e Portugal em particular, ou é uma afronta
caricatural? A fronteira é ténue para quem vê sem ouvir.
Os Golpes são de Portugal, sem vergonha. Os Golpes sonham e
fazem canções para serem ouvidas, dançadas e trauteadas se assim o merecerem
ser. Encaramos a encenação como resultado do sonho de ser banda. Algo que nos
deve ultrapassar como indivíduos e que se manifesta quando tocamos juntos.
Descendentes de uma maternidade musical e cultural portuguesa não temos
receitas ou objectivos traçados para além de fazer músicas que nos dêem gozo
tocar, ora cura para os nossos males e os de outros, ora pedaços
insignificantes que nos fazem querer dançar. Sempre com os pés em Portugal e
que nos tragam fama e fortuna!
Fazem parte de um
conjunto de bandas e cantautores que renovaram a forma de fazer música em
português – e assim continuam. Este Dia do Rock tem um significado especial?
(Olé!) Tem vários significados especiais. O dia em si.
Comemora-se Portugal, Luís Vaz de Camões, a Lusofonia e as Comunidades
Portuguesas. Uma óptima desculpa para fazer qualquer coisa com bandas que
teimam em cantar em português. O convite, feito por alguém que nos conhece e
que gosta bastante do que temos vindo a fazer. O local é a segunda casa do
Pedro da Rosa, ir lá fazer barulho tem sido um sonho há muito por
concretizar. O cartaz: partilhar palco com quem tem vindo a acompanhar o nosso
percurso e com quem já não partilhamos há muito tempo – Feromona! Partilhar o
palco com uma banda que ajudámos a parir, Os Capitães da Areia! Partilhar ainda
o palco com bandas que ainda conhecemos mal e que nos lembram que há que fazer
um esforço para as descobrir Matilha e Orphelia. Este Dia do Rock é o lugar
ideal! Não há MySpace, mp3 ou mesmo entrevista que substitua um concerto ao
vivo.
Os Capitães da Areia
«Pop com sol e sumo de laranja»

Jorge Amado parece
uma evidência mal se ouve falar de Os Capitães da Areia. Qual é a relação?
Na verdade a única relação que existe, entre nós e Jorge
Amado, é o nome de uma das suas obras. Assim sendo, qualquer tipo de influência
que possamos ter adquirido da sua obra é uma mera coincidência e não mais do
que isso. Apenas achámos que é um bom nome. Retirado do título de um bom livro.
A pop dos anos 1980
é-vos apontada constantemente como matriz. O que é curioso: é uma década de que
vocês só têm reminiscências indirectas. O que vos atrai?
A pop dos anos 80 marcou uma geração e marca muitos daqueles
que por ela não passaram e que só anos mais tarde tiveram contacto com essa
sonoridade tão característica. O que nos atrai é que nessa época o medo não
fazia parte dos artistas. A irreverência surgia a cada esquina. Primavam pela
diferença. Escreveram-se muito boas letras. E tudo isso é de louvar. O que
queremos é marcar pela diferença na actualidade, mas recorrendo ao nosso
próprio imaginário, género musical e, acima de tudo, mostrar que ainda se pode
fazer muito pela música cantada em português. Não é fácil. Mas é possível.
O mar surge deslocado
desse tempo robotizado da música. É o elemento necessário ao equilíbrio do que
pretendem fazer?
Sim. Nesta primeira fase (a fase que vai desde o dia em que
nos juntámos até ao momento em que terminámos de compor os primeiros 12 temas)
tivemos de procurar descobrir quem somos nós afinal. E o mar foi um dos
elementos mais importantes para essa descoberta. O mar representa o vazio mas,
simultaneamente, a imensidão. O nosso estilo genuíno é a música pop, com ritmos
bem definidos. Pop do mar e do Verão. Pop refrescante e colorida, mas
completamente inesperada.
As músicas falam de amores e desamores, sonhos, críticas à
sociedade, esplanadas, Verão, muitas e muitas raparigas, sol, tradição,
indecisões, mar, marés e outras bóias, e falam sobretudo de estar apaixonado e
as coisas que povoam o coração. É, em poucas palavras, pop com sol, férias e
sumo de laranja. Nela assentam ideais como o mar. Têm muito a ver com a
tradição portuguesa. Mas Os Capitães da Areia homenageiam-se a si mesmos.
Homenageamos o mar, a areia e, acima de tudo, o nosso fiel imaginário.
No Dia do Rock vão
trocar a praia pelos jardins do Técnico. Como planeiam levar a maresia ao
centro da cidade?
Bem, a partir do momento em que subirmos ao palco vamos
cantar calor e transpirar areia. Evidentemente que fazer com que o público
presente respire a brisa do mar. Tudo isto tendo sensivelmente 45 minutos de
canções nossas como banda sonora. Podem levar as toalhas, fatos de banho e não
se esqueçam do protector solar.
Vocês arrancaram por
desafio de Manuel Fúria. Os Capitães da Areia estão a coleccionar elogios desde
o início do ano. Tem corrido como esperavam?
Sim. Tem corrido como esperávamos. Existimos apenas desde
Maio de 2009, mas há ensaios semanais e trabalho diário, desde então. Tocamos
com muito gosto e entregamo-nos à banda porque somos cinco rapazes com ambição
e determinados. E, principalmente, fazemos o que queremos, quando queremos e
como bem queremos. Isso é fundamental. Temos objectivos e sonhos. O espírito
está à deriva no mar, mas os pés bem assentes na areia.
Matilha
«Quatro cães vadios»

A banda é nova, mas
quem vos ouve não acreditará que tenham acabado de sair do berçário. Quem
pertence à Matilha?
A Matilha é formada por quatro cães vadios, ponto final. É
uma banda recente, sim, mas de facto já nos conhecemos há uns anos. Temos
inclusive outros projectos musicais em conjunto. No entanto, não gostamos de
misturar as coisas e esses projectos são, para já, um assunto que não interesse
misturar com o quotidiano da Matilha.
Vocês já gravaram
três canções e estão prestes a mostrar um videoclip. Têm planos para editar o
conjunto em algum formato, ou vão esperar tempos mais profícuos?
O conjunto dos três temas mais o videoclip estão para
download gratuito, em vários locais na net, e não temos pretensões de editar
este pacote. Mais tarde, se sentirmos necessidade, poderemos avançar para a
edição de algo semelhante a um EP, mas será sempre com temas novos, e nunca com
estes já gravados, que estão a servir, acima de tudo, como cartão-de-visita da
Matilha.
Num momento em que os
registos de que dispõem são tão poucos, o que vos motivou a levar uma versão
dos Trovante para estúdio?
O poema é de Mário de Sá-Carneiro e a música de João Gil.
Este tema foi gravado pelos Trovante e tem uma densidade com que a Matilha se
identifica. Foi apenas uma questão de lhe dar uma roupagem mais nossa, e
sentimos que podia ter sido um tema feito por nós (com o devido respeito pelos
autores) pela carga energética que o compõe. Achámos que era uma boa canção
para dar voz e resolvemos gravá-lo, com a autorização do João Gil, que ouviu o
tema ao vivo e nos incentivou.
Que importância tem,
para bandas como a Matilha, o Movimento Alternativo Rock?
O MAR é um movimento que surge da necessidade das que o
compõem em fazer música, em português. A Matilha conheceu-o aquando a sua
formação, já o MAR tinha cerca de ano e meio de existência. Daí a conhecer as
outras bandas foi um instante, uma coisa leva a outra, e a Matilha passou a
fazer parte, e vice-versa. É extremamente gratificante, acima de tudo, fazer
parte de um grupo de músicos que se apoiam nesta sempre difícil caminhada no
meio musical nacional. Há sempre espaço para boa música, e a Matilha acredita
que há espaço para todos. Não é uma competição, mas sim um saudável convívio
entre bandas e músicos, que remam no mesmo sentido, e que fazem do cantar em
português a sua bandeira.
O que esperam do Dia
do Rock?
Esperamos acima de tudo que seja uma festa agradável, com
gente interessada em curtir bom som nacional, e que no final tenha valido a
pena e se fique com vontade de mais.
Esperamos também conseguir recolher mais uns quilos de
comida de cão, para doar à próxima instituição, que já está escolhida, e assim
dar continuidade à iniciativa que abraçámos desde o primeiro concerto que demos
enquanto Matilha.
Orphelia
«Inovar sem cair no autismo musical»

Orphelia mantém a
vontade de «habitar o rebanho, mas ter uma agenda diferente», dos primeiros
tempos da banda, de Electric Sheep?
Constantemente. É o eterno combate entre a explícita vontade
de nos destacarmos, de contribuir com algo original e refrescante, e a
incompetência com que o fazemos, nunca conseguindo fugir às raízes pop chunga
nem ao mau gosto musical de boa parte da banda.
Vocês têm uma peça
instrumental para celebrar os 50 anos da viagem espacial de Yuri Gagarin, o
primeiro homem em órbita. O que vos cativa, enquanto músicos, nesta efeméride?
É um romper, é uma estreia, é ser o primeiro a fazer algo
que tantos queriam, é roubar a virgindade à moça. Podem ir lá outros depois,
mas a moça sabe sempre quem foi o primeiro. Neste caso a moça seria o público.
Isto acaba por estar em concordância com o referido anteriormente: tentar
alcançar um resultado único, mas que julgamos estar em fase com uma vontade
generalizada de o conhecer. Queremos inovar não caindo num autismo musical.
Infelizmente neste filme temos sido os americanos, sempre a correr atrás dos
russos. Talvez cheguemos primeiro à lua, quem sabe.
Assinalaram, no ano
passado, as quatro décadas da missão lunar?
Não. E por um lado ainda bem. Senão agora éramos os
«Orphelia e os Astronautas»… O que não mete nem 30 por cento do estilo de
«Orphelia e os Cosmonautas».
Dizem que compõem de
uma forma heterogénea. Como é o vosso processo criativo?
Tem-se mutado, acompanhando as próprias mutações da banda.
Graças a uma combinação de dramas relacionais, oportunidades laborais e
projectos individuais, esta pandilha tem sofrido profundas alterações desde o
momento da sua fundação, no já longínquo ano 2000 sob o nome Alterego. Muitas
namoradas trocadas e zaragatas ideológicas depois, não é sem alguma surpresa
que reparamos que muito pouco sobra da formação original apesar de continuarmos
todos bons amigos (bros before hoes mas com atraso). A consequência é uma heterogenia na composição
consideravelmente maior. Ultimamente alguém traz uma ideia, agarramos nos
instrumentos, fechamos os olhos e esperamos que as forças sinérgicas do rock n roll nos levem a algum lado.
Depois logo se vê se gostamos da paisagem.
Vão abrir o Dia do
Rock. O que vos diz um evento de reunião pelos elementos comuns das bandas,
como este?
Tem todos os ingredientes para ser uma daquelas refeições
que, independentemente do preço, sabe-se logo que vamos querer voltar ao
restaurante. Felizmente começamos a ver um crescente movimento de paixão pelas
composições líricas na nossa língua, movimento esse que começa a colher
simpatia com o público. Atenção, não somos uns puritanos da língua! Faz-se
muita coisa muito gira em inglês em Portugal. A questão é que, quando surge
algo em português, parece sempre ter aquele toque especial. Até as vozes
parecem mais musicais. Oiça-se Ornatos, oiça-se Clã, oiça-se António e muitas
das suas Variações, oiça-se Mão Morta. Estes são já bichos consagrados. Este
dia 10 partilhamos o palco com bichos em consagração. E não podíamos estar mais
contentes com o facto. Queremos aproveitar para agradecer ao Pedro Dias, que
tem sido a potentíssima força motriz deste evento. Mais Dias houvesse como este
e o panorama musical podia estar bem mais aberto e receptivo à muita música boa
que anda por aí escondida em projectos de cavernas.
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