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 18.06.2010 | Música | Óbito

Morreu José Saramago, a lança portuguesa na literatura do mundo

 

O estado de saúde do primeiro e único Nobel da Literatura português deteriorou-se, sem retorno, nos últimos dias. Morreu esta sexta-feira, em Lanzarote. Memorial do Convento e O Evangelho Segundo Jesus Cristo ficam para a História.

 

José Saramago já não está. A vida de 87 anos que percorreu com o reconhecimento dado a poucos cessou esta sexta-feira, consequência fatal das mazelas permanentes deixadas pela pneumonia que muito o debilitou há cerca de dois anos. Os últimos dias pioraram o seu estado de saúde. O corpo velho do homem de carácter espartano não resistiu.

 

Mais do que não ser, José Saramago já não está. Era essa a sua inquietude com a morte, retirada das horas de insónia. E o escritor, antes de ter direito ao epíteto, surgido decisivo em 1980 com o romance Levantado do Chão, foi serralheiro mecânico, desenhador, funcionário de saúde e de previdência social, editor, tradutor e jornalista.

 

O caminho foi longo, desde que nasceu numa pequena aldeia da Golegã, de nome Azinhaga, em 1922. Descendente de gente simples, ficou afastado da educação de elite, das universidades – mais tarde, acumularia diversos doutoramentos honoris causa. Formou-se numa escola técnica, para garantir sustento. Nos tempos livres, estudou. Foi um autodidacta.

 

Em 1947, estreia-se nos livros, com Terra do Pecado, sem efeito. Três décadas passariam sem outro romance. Saramago, comunista, lança-se de novo na prosa após o 25 de Abril de 1974 – para trás ficam Os Poemas Possíveis (1966), entre outros. Segue para o prelo Manual de Pintura e Caligrafia (1977), procedido dos contos Objecto Quase (1978) e Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido (1979), e das peças A Noite (1979) e Que Farei com Este Livro? (1980).

 

Eis que chega a terreiro Levantado do Chão, o trabalho com que Saramago se inicia na experimentação formal do texto, na depuração da pontuação e na reinvenção da gramática dos liceus. É um best-seller. Logo a seguir, Memorial do Convento (1982) e da carne do escritor fez-se o espectro que fica para História. Aqui, a literatura portuguesa é marcada para sempre pelo rapaz que até aos 14 anos andou descalço pelos campos, a ajudar o avô com os porcos.

 

José Saramago entra então num período de profícua produção literária, lançando títulos como O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) ou A Jangada de Pedra (1986). O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) foi um sarilho: a Igreja Católica ofendeu-se, o Governo liderado por Cavaco Silva impediu, por acção do subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, por questões morais, o romance de concorrer a um prémio literário europeu; Saramago saiu do país.

 

O livro, que foi distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, granjeou ao escritor espaço entre os grandes do século XX: Marcel Proust, Franz Kafka e James Joyce. O aclamado Ensaio Sobre a Cegueira é publicado em 1995, ano em que Saramago recebe o Prémio Camões, preâmbulo para o Nobel de 1998. O brasileiro Fernando Meirelles verteria a narrativa para filme em 2008.

 

Até à data da sua morte fez chegar ao público um punhado de livros, entre os quais se contam Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), Ensaio Sobre a Lucidez (2004) ou, mais recentemente, A Viagem do Elefante (2008) e Caim (2009), com que reanimou o debate religioso que lhe era caro. Se ainda falta dizer, Saramago era ateu.

 

Casou três vezes, a última com Pilar Del Rio, presidente da fundação que leva o seu nome e que está sediada na Casa dos Bicos, em Lisboa. Teve uma filha, Violante (n. 1947). Faleceu em Lanzarote, nas ilhas Canárias, onde residia, rodeado pela família e amigos. O corpo será trazido para a capital portuguesa no sábado. Ficará em câmara ardente no salão nobre dos Paços do Concelho. Será cremado no Alto de São João.

Hugo Torres
 
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