Música
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In Rainbows
Radiohead, 2007
Dissociado. Catatónico. Condições base, necessárias! Ambiente estéril. Não ser influenciado, nem
influenciar. Não contaminar. Nem ser contaminado. Ser capaz da imparcialidade. Arrumar logo com a
parcialidade da etiqueta: «São os Radiohead». O passado e a história pesam na avaliação, daí a
necessária abstracção da realidade.
Não encaixar o álbum aqui e acolá, ultrapassar etapas
do fuso cronológico, colar pedaços entre uma era e outra.
Pós-Ok Computer e pré-Kid A? Mais guitarra, menos electrónica? Mais acústico, menos barulhento? Estou catatónico. Incapaz de pormenores incisivos e
análises frias. Deixo para outros preciosismos do género. Afinal a maioria das canções já possui um vasto número
de quilómetros nas pernas, tendo sido testadas ao vivo em vários concertos.
«Yeahhhh» do coro de crianças da primeira música, 15 Step. Ouvi eu com atenção? Ilusão auditiva causada pelo
genuíno entusiasmo das primeiras batidas, dos primeiros acordes de In
Rainbows? Ou fará parte do recheio, é real? Tudo na mesma faixa, combinados
perfeitamente são um bom agoiro. Um bom ponto de partida, portanto. Entra riff de baixo na segunda música, arranjos de
orquestra acompanhados de voz espacial na terceira. Estarão todos os sentidos em alerta? Porque nem só a
audição é activada. Parece palpável, toca-nos. Tem uma textura, uma infinidade
de mudanças de ritmo, inúmeros pormenores espalhados como partículas de pó aqui
e acolá que a certa altura pousam da sua viagem e aterram nos nossos ouvidos.
Dando a sensação do toque.
Depois existem devaneios de guitarra, sem amarras
feitas de acordes. Existe um denominador comum, a voz. Sempre presente,
despida de efeitos na Nude, flutuante e difusa enfiada dentro do aquário
na Weird Fishes/Arpeggi.
Depois tudo se mistura de novo. Tudo volta a
simplificar-se no final. Combinam todos os elementos, unificando-se num grande
e sólido álbum? Partem em várias direcções, cada música com seu rumo,
funcionando cada música de forma egoísta, em forma de hino, sozinha na escolha
pessoal de cada fã? Inúmeras questões, apenas respondidas pelo tempo.

Radiohead tem esta fórmula. O rótulo pode indicar o ano da colheita, mas a forma como ele
amadurece é pessoal e intransmissível. Pode tentar-se a previsão, lançar o
prognóstico, mas a verdade só vem depois de repetidas audições. É assim que funciona comigo. Derruba logo a barreira
da fasquia elevada fazendo-a cair ou a gravidade morre e ela flutua, quiçá, até
patamares mais elevados. O tempo que dite a altura, que ajude no questionário e
forneça as respostas para as dúvidas. No presente, o tempo que já passou, pronunciou o
veredicto de bom, fantástico e lindo. Pequenas peças de puzzle que encaixam e
no final formam um tesouro.
Fará dele uma obra-prima ou apenas hype do
momento, deixem-no a ele – tempo – o papel principal de servir de juiz.
Porque eu, como jurado, só alinho numa sentença.
Aquela que a lei obriga a várias repetições, feitas por gosto e por vontade. E
que se determine, por decreto, que os últimos versos, da última canção, Videotape, sejam apenas isso mesmo, uma letra, não um aviso, uma mensagem subliminar de
quem escreve: «This is my way of saying goodbye/ Because i can't do it face to face.»
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