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«Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar,/ leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor.» «Tal como, antes, os jovens, assim agora, esta minha corte, as mulheres/ gravem nos seus despojos: “foi Nasão o nosso
Do mesmo artista
apontador Amores, 2006

 
   
 Literatura  | Poesia

Arte de Amar

 Ovídio, 2008

 

 

Desengane-se quem queira ver nesta obra de Ovídio, Arte de Amar (tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André), algo como um piedoso vade-mécum para o sentimento presente no título. A termos em conta uma palavra, e uma só – comecemos por uma abordagem propositadamente simplista –, conviria, talvez, fazê-lo em relação a «arte». É ela que predomina: a arte não propriamente de amar, mas de melhor escolher o alvo – «Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo» (p.30) – e de como alcançá-lo – «Deita mão de qualquer pretexto e torna-o útil a teus propósitos» (p.33). «O “espírito” era ainda o sopro, a respiração, o vento, o ânimo, o ánemos, a interioridade vital não divorciada da matéria. O “homem clássico”, quando empenhado em cantar o erotismo, cantava o seu fervor em uníssono com os órgãos intervenientes na cópula, mencionava e enumerava as vias do prazer.» – eis o que nos dizem as palavras introdutórias da Antologia de Poesia Latina Erótica e Satírica, publicada em 1975, por mão de Fernando Ribeiro Mello / Edições Afrodite: porventura, a mais urgente reedição no campo dos autores clássicos.

 

Nos seus 812 versos, o poema constitui um guia para a conquista. Dos três livros em que está dividido, «os dois primeiros são dirigidos aos homens, o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente, ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher» (C.A.D., p.12). Nesse aspecto, seria, por certo, tão legítimo (ou mais) aproximá-lo dos libertinos setecentistas quanto de poetas mais ou menos seus contemporâneos, como Horácio, Propércio, ou Tibulo. Eivada de um cinismo hedonista, a Arte de Amar apresenta, nos seus versos, um conjunto de conselhos práticos – «Mas cuida, primeiro, de conhecer a criada da mulher a conquistar;/ ela há-de favorecer as tuas tentativas» (p.40) –, que não deixam de fora qualquer pormenor – «Se, no jogo, lançar de suas mãos os dados de marfim,/ lança-os tu sem jeito; e, depois de os lançares, dá-lhos» (p.61) –, qualquer enquadramento – «muitas coisas lhe dirás com as sobrancelhas, muitas coisas por sinais;/ e aplaude, quando um mimo representa, na dança, uma donzela,/ e aclama todo aquele que fizer o papel de amante» (p.44).

 

Os conselhos do Sulmonense estendem-se à própria aparência: masculina – «Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens./ (…) / esteja a toga apresentável e sem nódoas;/ não deve usar-se calçado ressequido e não haja ferrugem nas fivelas» (p.45) – e (por vezes, com actualidade premente, como não deixa de lembrar Ascenso André) feminina – «Um rosto comprido quer cabelos soltos na fronte, com simplicidade;/ (…)./ Fica, até, bem a muitas um cabelo desleixado» (p.83). De resto, recorde-se que, posteriormente, o poeta haveria, mesmo, de compor uma obra (de que nos chegaram apenas cem versos) inteiramente devotada a esse particular: Cosméticos para a Face Feminina (Medicamina Faciei Femineae).

 

Na terceira parte do seu poema, o poeta aborda – na verdade, não com muita extensão, o que não livrou a obra do ferrete da acusação de licenciosidade – da carnalidade do acto amoroso, com uma desinibição que é menos consequência da malícia do que descendente de um pragmatismo assumido desde os primeiros versos – «É com palavras nuas que devo avançar» (p.101). Espécie de confirmação suplantadora dos postulados prévios, os conselhos finais concentram-se, sem peias, nos meios e modalidades do sexo – «a de baixa estatura deve montar como a cavalo» (p.102); «a que possui coxas de rapariga e tem ainda um peito sem defeitos,/ fique o homem de pé e ela estendida de viés na cama» (p.103). Cuidemos, por fim, de não esquecer que, pese embora o jaez desempoeirado do seu canto, Ovídio é bem um homem do seu tempo, e mesmo quando parece pregar a igualdade, no caso vertente, na fruição sexual – «a coisa há-de ser aprazível, ao mesmo tempo, aos dois» (p.111) –, é o predomínio masculino que se defende e se perpetua.

 

Nasceu Públio Ovídio Nasão a 20 de Março de 43 a.C., em Sulmo (actualmente, Sulmona), a cerca de 150 quilómetros de Roma, na região de Abruzos, de antiga família equestre. Mercê do ambiente privilegiado em que veio ao mundo, beneficiou de educação esmerada. Assim, juntamente com o irmão, apenas um ano mais velho do que ele (mas que morreria jovem), rumou a Roma, com o propósito de estudar Gramática e Retórica. Foram seus mestres célebres rétores: Arélio Fusco e Pórcio Latrão. De Séneca, o Velho, chega-nos o testemunho das suas provas escolares, bem como a sugestão dos efeitos de uma educação fortemente retórica: patente no desvelo com que se usam as palavras, no amor (desenfreado, diríamos) delas. Findos os estudos, coroou o poeta a sua instrução com a obrigatória romagem a Atenas – preceito fundamental para a educação de um romano abastado e culto. Completá-la-ia, ainda, com viagens ao Egipto, Ásia Menor e Sicília, onde permaneceu cerca de um ano. Nestas andanças, se terá nutrido do armamento retórico e poético que haveria de lhe permitir ser o prolixo autor que viria a revelar-se. De regresso a Roma, ainda ocupou alguns cargos, não muito relevantes, na magistratura, para a qual o pai o destinara, mas que Ovídio sempre preterira, em favor dos versos: cativado, talvez, pela noção de um destino preso pelos liames da poesia, como se de um bálsamo para uma torrente imparável se tratasse. Data de então o seu primeiro casamento. O poeta haveria, de resto, de se consorciar três vezes, mas só a última tentativa não redundou em divórcio. Sabemos que teve uma filha – embora se desconheça se do segundo, ou do terceiro matrimónios.

 

Ovídio compôs uma Medeia, de que nos chegaram escassos versos, como aquele em que lemos – «Fui capaz de salvar-te, e perguntas-me se não seria capaz de te perder?» (citado por Parattore, que, por sua vez, cita Quintiliano). Com cerca de vinte anos, inicia, com a redacção de Amores (primeiro em cinco, depois [a forma que até nós chegou], em três livros), o conjunto de obras compostas sob o influxo do estro amoroso, e que haveria de se consolidar com Arte de Amar e Heroídes. Deixa de parte os postos administrativos que ocupara e, contra a vontade do pai, consagra-se por completo à poesia. Entretanto, soubera obter o seu lugar no círculo de Messala Corvino, no qual brilhava Tibulo. Beneficiou do apoio do poeta Cornélio Galo (o qual, mais tarde, desavindo com a casa imperial, haveria de se suicidar), e era lido por vates como Horácio ou Propércio. É provável que Heroídes tenha sido composto em simultâneo com Amores, ou até antes. Nela se nos apresentam um conjunto de cartas fictícias, atribuídas a heroínas amorosas, endereçadas aos seus pares – mais tarde, complementadas pelas epístolas dos destinatários, em resposta às amadas. O que, em Amores, era primado da acção e do protagonismo amoroso passa, em Arte de Amar, a ser fórmula e tratado ditados pela experiência amorosa, ou pelo artefacto da persona poética. Por forma a deixar de sobreaviso os homens, perante as artimanhas reveladas na Arte, publicou Ovídio, pouco depois, os Remédios do Amor, numa altura em que vira já a luz do dia o poema Cosméticos para a Face Feminina.

 

Por volta do ano 3 d.C., entregou-se o Sulmonense à escrita do seu poema mais extenso e, porventura, de maior importância, as Metamorfoses, em cujos quinze livros «aquele que, a partir das suas formas iniciais, transforma os corpos» (nas palavras de um poeta tardio, Estácio), percorre, equilibrado no fio instável do tópico da transformação, a vastíssima galeria dos mitos. Por outro lado, Ovídio compôs, ainda, os Fastos, o poema (que deixou incompleto) consagrado ao calendário romano, em que cada livro corresponde a um mês.

 

Ovídio estava, então, no auge da sua reputação e era aclamado como o poeta romano por excelência. Havia muito que tinham morrido Virgílio (em 19 a.C.) e Horácio (em 8 a.C.). Em 8 d.C., no entanto, o poeta foi forçado a abandonar a cidade, mediante sentença de Augusto, pronunciada, em pessoa, pelo próprio Imperador. A acusação era a de atentado contra a figura e/ou a política do princeps. O poeta deveria rumar a Tomos (onde, actualmente, se situa Constanţa, na Roménia), nas margens do Mar Negro. Ovídio foi obrigado a partir só, sem sequer poder fazer-se acompanhar da mulher. No mesmo lance, retiravam-se os exemplares de Arte de Amar das bibliotecas. Ao saber da infausta novidade, o poeta nem sequer se encontrava em Roma: na companhia de Cota Máximo (filho de Messala), estava na ilha de Elba. Como reacção, Ovídio teria, segundo o que o próprio nos diz, queimado (à semelhança do que Virgílio pretendeu fazer com a Eneida) o manuscrito de Metamorfoses – mesmo a ser verdade esta anedota, o facto é que numerosas cópias da obra circulavam já por toda a cidade.

 

A explicação de Ovídio para a sua relegatio (segundo a qual matinha os seus direitos e propriedades, o que não sucedia com o a situação de exílio [exilium]), exarada nos seus Tristia, «carmen et error» («um poema e um erro»), não chega a ser esclarecedora, sobretudo se pensarmos que a Arte de Amar (o «suspeito» mais óbvio) fora publicada em 8 a.C. e reeditada em 1 ou 2 d.C.: ou seja, em qualquer dos casos, vários anos antes. Aventam-se hipóteses várias, entre as quais avulta, como mais verosímil, a possibilidade de o poeta ter sido envolvido, como testemunha involuntária, por exemplo, em qualquer intriga da corte imperial (mais particularmente, da família do princeps).

 

Durante a longa viagem (a qual se prolongou de finais do ano 8 até Maio do ano seguinte), escreveu Íbis, um poema que visava atingir, com os seus versos, um detractor não identificado. No período da sua relegação (que não chegou a ser interrompido, nem mesmo com a morte do Imperador, uma vez que Tibério, sucessor de Augusto, tão-pouco se deixou demover), compôs o poeta os Tristia e as Epístolas do Ponto. A primeira obra recolhe um conjunto de cartas endereçadas à mulher e a amigos, não nomeados, por questões de segurança, e, a encerrar, um poema endereçado a Augusto. O propósito, de não ser esquecido, por um lado, e de clamar por perdão, por outro, divide os especialistas – havendo os que vêm na sua produção de exilado a força do resistente, assim como os que nela lêem o rebaixamento do suplicante. As Epístolas do Ponto retomam, naturalmente, a modalidade epistolar da obra precedente, embora, nesta obra, os destinatários sejam referidos e se agudizem a decepção e a melancolia. Em língua gética, que, entretanto, aprendera, compôs, ainda, um poema (que não chegou até nós) em louvor de Augusto (e da família imperial), a celebrá-lo como divindade. No final da vida, o poeta iniciou a redacção de um poma sobre os hábitos da vida dos peixes e acerca dos pescadores da região, a que chamou Halieutica, e de que nos restam pouco mais de 130 versos.

 

Segundo o juízo de Quintiliano, Ovídio teria sido melhor poeta «se tivesse controlado o seu génio, em vez de se ter deixado controlar por ele». «Mais novelista que poeta,» na venturosa formulação de Mourão-Ferreira (poeta que não aprecio, de resto; aqui, como tradutor de Arte de Amar, que o foi, em conjunto com Natália Correia [idem]), «e mais ainda cronista brilhante que propriamente novelista, Ovídio viria com efeito a mostrar-se exímio na arte de compor um poema como quem compõe um discurso, utilizando os tropos mais adequados, os tópicos mais eficazes e uma técnica apuradíssima na sucessão e na articulação das diversas partes do assunto que escolhia.»

 

Arte de Amar é reedição (recente), em formato de bolso (Biblioteca de Editores Independentes), do volume de 2006 dos Livros Cotovia. Não será excessivo louvar o trabalho da iniciativa editorial BEI, que tem tornado mais acessível um conjunto de livros que, sem muito esforço, poderíamos considerar, senão fundamentais, pelo menos, importantes, ou interessantes. Registe-se, ainda, o número razoável de volumes que pertencem a essa categoria algo difusa e mui assustadora para as casas editoras e livreiros, os chamados clássicos – Homero, Ovídio, Séneca, Suetónio, Marco Aurélio.

 
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Comentários

PAULA FERNANDA DOURADO BARBOSA
30-09-2008
ovidio

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