Literatura
| Poesia
Arte de Amar
Ovídio, 2008
Desengane-se quem queira ver nesta obra de Ovídio, Arte
de Amar (tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André), algo como
um piedoso vade-mécum para o sentimento presente no título. A termos em conta
uma palavra, e uma só – comecemos por uma abordagem propositadamente simplista
–, conviria, talvez, fazê-lo em relação a «arte». É ela que predomina: a arte
não propriamente de amar, mas de melhor escolher o alvo – «Antes de mais, o
que quiseres amar, trata de procurá-lo» (p.30) – e de como alcançá-lo – «Deita
mão de qualquer pretexto e torna-o útil a teus propósitos» (p.33). «O
“espírito” era ainda o sopro, a respiração, o vento, o ânimo, o ánemos,
a interioridade vital não divorciada da matéria. O “homem clássico”, quando
empenhado em cantar o erotismo, cantava o seu fervor em uníssono com os órgãos
intervenientes na cópula, mencionava e enumerava as vias do prazer.» – eis o
que nos dizem as palavras introdutórias da Antologia de Poesia Latina
Erótica e Satírica, publicada em 1975, por mão de Fernando Ribeiro Mello /
Edições Afrodite: porventura, a mais urgente reedição no campo dos autores
clássicos.
Nos seus 812 versos, o poema constitui um guia para a
conquista. Dos três livros em que está dividido, «os dois primeiros são
dirigidos aos homens, o terceiro às mulheres. O primeiro visa, genericamente,
ensinar o homem a seduzir a mulher; o segundo, a conservar o amor, depois de
concluído, com êxito, o processo de sedução; o terceiro engloba o mesmo conjunto
de ensinamentos, mas, desta feita, dirigidos à mulher» (C.A.D., p.12). Nesse
aspecto, seria, por certo, tão legítimo (ou mais) aproximá-lo dos libertinos
setecentistas quanto de poetas mais ou menos seus contemporâneos, como Horácio,
Propércio, ou Tibulo. Eivada de um cinismo hedonista, a Arte de Amar apresenta,
nos seus versos, um conjunto de conselhos práticos – «Mas cuida, primeiro,
de conhecer a criada da mulher a conquistar;/ ela há-de favorecer as tuas
tentativas» (p.40) –, que não deixam de fora qualquer pormenor – «Se, no
jogo, lançar de suas mãos os dados de marfim,/ lança-os tu sem jeito; e, depois
de os lançares, dá-lhos» (p.61) –, qualquer enquadramento – «muitas
coisas lhe dirás com as sobrancelhas, muitas coisas por sinais;/ e aplaude,
quando um mimo representa, na dança, uma donzela,/ e aclama todo aquele que
fizer o papel de amante» (p.44).
Os conselhos do Sulmonense estendem-se à própria aparência: masculina
– «Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens./ (…) / esteja a toga
apresentável e sem nódoas;/ não deve usar-se calçado ressequido e não haja
ferrugem nas fivelas» (p.45) – e (por vezes, com actualidade premente, como
não deixa de lembrar Ascenso André) feminina – «Um rosto comprido quer
cabelos soltos na fronte, com simplicidade;/ (…)./ Fica, até, bem a muitas um
cabelo desleixado» (p.83). De resto, recorde-se que, posteriormente, o
poeta haveria, mesmo, de compor uma obra (de que nos chegaram apenas cem
versos) inteiramente devotada a esse particular: Cosméticos para a Face
Feminina (Medicamina Faciei Femineae).
Na terceira parte do seu poema, o poeta aborda – na verdade,
não com muita extensão, o que não livrou a obra do ferrete da acusação de
licenciosidade – da carnalidade do acto amoroso, com uma desinibição que é
menos consequência da malícia do que descendente de um pragmatismo assumido
desde os primeiros versos – «É com palavras nuas que devo avançar» (p.101).
Espécie de confirmação suplantadora dos postulados prévios, os conselhos finais
concentram-se, sem peias, nos meios e modalidades do sexo – «a de baixa
estatura deve montar como a cavalo» (p.102); «a que possui coxas de
rapariga e tem ainda um peito sem defeitos,/ fique o homem de pé e ela
estendida de viés na cama» (p.103). Cuidemos, por fim, de não esquecer que,
pese embora o jaez desempoeirado do seu canto, Ovídio é bem um homem do seu
tempo, e mesmo quando parece pregar a igualdade, no caso vertente, na fruição sexual
– «a coisa há-de ser aprazível, ao mesmo tempo, aos dois» (p.111) –, é o
predomínio masculino que se defende e se perpetua.
Nasceu Públio Ovídio Nasão a 20 de Março de 43 a.C., em Sulmo
(actualmente, Sulmona), a cerca de 150 quilómetros de Roma, na região de
Abruzos, de antiga família equestre. Mercê do ambiente privilegiado em que veio
ao mundo, beneficiou de educação esmerada. Assim, juntamente com o irmão,
apenas um ano mais velho do que ele (mas que morreria jovem), rumou a Roma, com
o propósito de estudar Gramática e Retórica. Foram seus mestres célebres
rétores: Arélio Fusco e Pórcio Latrão. De Séneca, o Velho, chega-nos o
testemunho das suas provas escolares, bem como a sugestão dos efeitos de uma
educação fortemente retórica: patente no desvelo com que se usam as palavras, no
amor (desenfreado, diríamos) delas. Findos os estudos, coroou o poeta a sua instrução
com a obrigatória romagem a Atenas – preceito fundamental para a educação de um
romano abastado e culto. Completá-la-ia, ainda, com viagens ao Egipto, Ásia
Menor e Sicília, onde permaneceu cerca de um ano. Nestas andanças, se terá
nutrido do armamento retórico e poético que haveria de lhe permitir ser o
prolixo autor que viria a revelar-se. De regresso a Roma, ainda ocupou alguns
cargos, não muito relevantes, na magistratura, para a qual o pai o destinara,
mas que Ovídio sempre preterira, em favor dos versos: cativado, talvez, pela
noção de um destino preso pelos liames da poesia, como se de um bálsamo para
uma torrente imparável se tratasse. Data de então o seu primeiro casamento. O
poeta haveria, de resto, de se consorciar três vezes, mas só a última tentativa
não redundou em divórcio. Sabemos que teve uma filha – embora se desconheça se
do segundo, ou do terceiro matrimónios.
Ovídio compôs uma Medeia, de que nos chegaram
escassos versos, como aquele em que lemos – «Fui capaz de salvar-te, e
perguntas-me se não seria capaz de te perder?» (citado por Parattore, que,
por sua vez, cita Quintiliano). Com cerca de vinte anos, inicia, com a redacção
de Amores (primeiro em cinco, depois [a forma que até nós chegou], em
três livros), o conjunto de obras compostas sob o influxo do estro amoroso, e que
haveria de se consolidar com Arte de Amar e Heroídes. Deixa de parte os
postos administrativos que ocupara e, contra a vontade do pai, consagra-se por
completo à poesia. Entretanto, soubera obter o seu lugar no círculo de Messala
Corvino, no qual brilhava Tibulo. Beneficiou do apoio do poeta Cornélio Galo (o
qual, mais tarde, desavindo com a casa imperial, haveria de se suicidar), e era
lido por vates como Horácio ou Propércio. É provável que Heroídes tenha
sido composto em simultâneo com Amores, ou até antes. Nela se nos
apresentam um conjunto de cartas fictícias, atribuídas a heroínas amorosas, endereçadas
aos seus pares – mais tarde, complementadas pelas epístolas dos destinatários,
em resposta às amadas. O que, em Amores, era primado da acção e do
protagonismo amoroso passa, em Arte de Amar, a ser fórmula e tratado ditados
pela experiência amorosa, ou pelo artefacto da persona poética. Por
forma a deixar de sobreaviso os homens, perante as artimanhas reveladas na Arte,
publicou Ovídio, pouco depois, os Remédios do Amor, numa altura em que vira
já a luz do dia o poema Cosméticos para a Face Feminina.
Por volta do ano 3 d.C., entregou-se o Sulmonense à escrita
do seu poema mais extenso e, porventura, de maior importância, as Metamorfoses,
em cujos quinze livros «aquele que, a partir das suas formas iniciais,
transforma os corpos» (nas palavras de um poeta tardio, Estácio), percorre,
equilibrado no fio instável do tópico da transformação, a vastíssima galeria
dos mitos. Por outro lado, Ovídio compôs, ainda, os Fastos, o poema (que
deixou incompleto) consagrado ao calendário romano, em que cada livro corresponde
a um mês.
Ovídio estava, então, no auge da sua reputação e era
aclamado como o poeta romano por excelência. Havia muito que tinham morrido Virgílio
(em 19 a.C.) e Horácio (em 8 a.C.). Em 8 d.C., no entanto, o poeta foi forçado
a abandonar a cidade, mediante sentença de Augusto, pronunciada, em pessoa,
pelo próprio Imperador. A acusação era a de atentado contra a figura e/ou a
política do princeps. O poeta deveria rumar a Tomos (onde, actualmente, se
situa Constanţa, na Roménia), nas margens do Mar Negro. Ovídio foi obrigado a
partir só, sem sequer poder fazer-se acompanhar da mulher. No mesmo lance,
retiravam-se os exemplares de Arte de Amar das bibliotecas. Ao saber da
infausta novidade, o poeta nem sequer se encontrava em Roma: na companhia de
Cota Máximo (filho de Messala), estava na ilha de Elba. Como reacção, Ovídio teria,
segundo o que o próprio nos diz, queimado (à semelhança do que Virgílio pretendeu
fazer com a Eneida) o manuscrito de Metamorfoses – mesmo a ser
verdade esta anedota, o facto é que numerosas cópias da obra circulavam já por
toda a cidade.
A explicação de Ovídio para a sua relegatio (segundo
a qual matinha os seus direitos e propriedades, o que não sucedia com o a
situação de exílio [exilium]), exarada nos seus Tristia, «carmen
et error» («um poema e um erro»), não chega a ser esclarecedora, sobretudo
se pensarmos que a Arte de Amar (o «suspeito» mais óbvio) fora publicada
em 8 a.C. e reeditada em 1 ou 2 d.C.: ou seja, em qualquer dos casos, vários
anos antes. Aventam-se hipóteses várias, entre as quais avulta, como mais
verosímil, a possibilidade de o poeta ter sido envolvido, como testemunha
involuntária, por exemplo, em qualquer intriga da corte imperial (mais
particularmente, da família do princeps).
Durante a longa viagem (a qual se prolongou de finais do ano
8 até Maio do ano seguinte), escreveu Íbis, um poema que visava atingir,
com os seus versos, um detractor não identificado. No período da sua relegação
(que não chegou a ser interrompido, nem mesmo com a morte do Imperador, uma vez
que Tibério, sucessor de Augusto, tão-pouco se deixou demover), compôs o poeta
os Tristia e as Epístolas do Ponto. A primeira obra recolhe um conjunto
de cartas endereçadas à mulher e a amigos, não nomeados, por questões de
segurança, e, a encerrar, um poema endereçado a Augusto. O propósito, de não
ser esquecido, por um lado, e de clamar por perdão, por outro, divide os
especialistas – havendo os que vêm na sua produção de exilado a força do
resistente, assim como os que nela lêem o rebaixamento do suplicante. As Epístolas
do Ponto retomam, naturalmente, a modalidade epistolar da obra precedente,
embora, nesta obra, os destinatários sejam referidos e se agudizem a decepção e
a melancolia. Em língua gética, que, entretanto, aprendera, compôs, ainda, um
poema (que não chegou até nós) em louvor de Augusto (e da família imperial), a
celebrá-lo como divindade. No final da vida, o poeta iniciou a redacção de um poma
sobre os hábitos da vida dos peixes e acerca dos pescadores da região, a que
chamou Halieutica, e de que nos restam pouco mais de 130 versos.
Segundo o juízo de Quintiliano, Ovídio teria sido melhor
poeta «se tivesse controlado o seu génio, em vez de se ter deixado controlar
por ele». «Mais novelista que poeta,» na venturosa formulação de
Mourão-Ferreira (poeta que não aprecio, de resto; aqui, como tradutor de Arte
de Amar, que o foi, em conjunto com Natália Correia [idem]), «e mais ainda
cronista brilhante que propriamente novelista, Ovídio viria com efeito a
mostrar-se exímio na arte de compor um poema como quem compõe um discurso,
utilizando os tropos mais adequados, os tópicos mais eficazes e uma técnica
apuradíssima na sucessão e na articulação das diversas partes do assunto que
escolhia.»
Arte de Amar é
reedição (recente), em formato de bolso (Biblioteca de Editores Independentes),
do volume de 2006 dos Livros Cotovia. Não será excessivo louvar o trabalho da iniciativa
editorial BEI, que tem tornado mais acessível um conjunto de livros que, sem
muito esforço, poderíamos considerar, senão fundamentais, pelo menos, importantes,
ou interessantes. Registe-se, ainda, o número razoável de volumes que pertencem
a essa categoria algo difusa e mui assustadora para as casas editoras e
livreiros, os chamados clássicos – Homero, Ovídio, Séneca, Suetónio, Marco
Aurélio.
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