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 Música  |

Exílio

 Quinteto Tati, 2004

 

 

Correr dedos ao alto. A chamar águas esguias, contundentes de felicidade. Esquivando esta pessoa, este poste, este banco, este pedinte. Enchendo a boca de doces, acrescentando ao corpo fino das mãos duras. Por entre prédios e vitrais, lojas e gravatas. Agravando o sorriso, rasgando os olhos.


Suado, fôlego fugidio, gargalha o pouco mais de metro. No chão. Segurando-o com o sangue da testa que abriu. No trambolhão que assustou os sérios nos joelhos. A bicicleta não está longe. Um passo, dois: um chocolate – guarda-se o último para pôr na sopa.

Exílio é obra. Sai das mentes conspurcadas de J.P. Simões e Sérgio Costa. Arrumados nos lados anárquicos da ironia e da fantasia. O primeiro na voz das palavras soltas; o segundo a dar-lhes cor.


Entre a vontade de correr, sorrir, fugir para e de lado nenhum, de devaneio, de Amor e do fundo respirável do mar e de Lisboa, uma criança. Encantada na música do jazz, da bossa-nova, da rumba e das valsas. A dançar os trompetes, as cordas, as peles e os assobios; as palavras. As letras conjuntas de poesia extrema de J.P. Simões, o bêbedo de alma.


Tema é só um: Exílio. Qualquer partição parece demasiado pretensiosa; qualquer subnome arrepiante para ser apenas isso. Nascidos numa dependência conjuntural. Siameses. Como um café e as letras e a bola. Como o calafrio último da porta fechada atrás de nós, num final de tarde invernoso. Indissociável.

Sexteto – a contrariar o nome –, além de J.P. Simões e Sérgio Costa (casados em Belle Chase Hotel), conta com José Miguel Nogueira (guitarras), Pedro Pinto (cordas maiores), Rui Alves (peles) e Daniel Tapadinhas (sopros). A consistência é devoradora. As certezas acutilantes.


Quinteto Tati é nome para o projecto mais forte a brotar dentro de portas, nos últimos tempos. Donna Maria e A Naifa são os outros, mas podem – e apesar as inovações ao estilo – depender dos apaixonados do fado, mesmo os que em potência até então.

Pode chamar-se já obra-prima; ou esperar-se pelo próximo trabalho.

 
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Comentários

Sílvio Mendes
28-04-2006
o melhor do melhor do melhor.
"que hei-de fazer?".
Apaixonadíssimo.

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