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 Música  | EP

56010-92

 Noiserv, 2005

 

 

Como se chegasse o frio à noite primaveril. Triste, sozinha, encaminhada para dentro, derrotadas pelas luzes da rua, obscurecidas na janela por onde se vê o mundo. As nuvens dissolvidas no preto sem estrelas, da impertinente envergadura da noite, por onde os homens se ferem, dormindo.
Os amigos zumbem, fora de mim, as inquietudes dos outros, escritas nos jornais, submetendo-se muito raramente à loucura da música encaminhada na suave e doce voz que agarram as palavras ternamente. Sobem-me os braços numa rectidão louca – de predador esgazeado – dos olhos curtos, entorpecidos. Prende-me uma raiz à terra, como se fosse árvore, depois do umbigo ter rebentado em resina. Serpenteante.

Perkaholic inebria o corpo, em partidas distantes da qualquer seriedade em potência – se é para apaixonar, apaixonamo-nos. (ponto) Não há razões sérias que gostem com os braços, com os movimentos, com o todo inseparável nos momentos reais de êxtase interior. A concordância com os batimentos mais puros do coração é que pautam essas coisas. Da profundidade inquieta, cega, pertinente a muito poucos.
Se se solta um esgar acompanhado num exercício célere da cabeça, solta, entrou Dance, instante de serena intensidade. Liberdade inquietante das soltas arribas de um conjunto de cordas de guitarra e voz. Escritas na ribanceira, sentado, com as costas muito curvadas. Encostadas no vento primeiro de Outono.
Undone: ó caralho, tirem-me este rapaz da gaveta, isto é genial, não faz sentido perdido nos meandros da Internet, nos meandros da prateleira, dos bolsos, das lojas – isto é nas rádios, nos ouvidos, no cinema, nos corações! Dêem-lhe lugar na telenovela, permitam que toda a gente, do espectro social daqui ali. Esta música não permite subterfúgios e precisava de uma mudança drástica do registo de quem escreve. Se este não é um dos melhores temas escritos em Portugal nos últimos tempos, demito-me. Não há postura que me valha: ouçam de guelras levantas – não de peixe morto, mas de peixe que respira com força e vontade. Sejam tubarões desalmados e engulam Undone de vez única: é tudo menos indigesto.

Noiserv é o alter-ego de David Santos. E nele cabem as composições, as letras, as guitarras e o metalofone. Ou o mundo. 56010-92 é o EP de estreia, lançado pela Merzbau, escrito, gravado e produzido em casa – de novo, a pouca disponibilidade financeira para grandes estúdios não implicam falta de qualidade substantiva na música.
É mais um projecto de qualidade superior que não merecia ser esquecido no tempo e no pó. É aqui que tento que não. Veemente.


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Comentários

Sílvio Mendes
12-10-2006
Finalmente cruzei-me com Noiserv.
E devo dizer:
apaixonadíssimo.
Tenho dito.
A.M.P.A.
09-06-2006
Concordo e acrescento...lembra-me e transporta-me a uma noite de brisa intensa em que o arrepio, a dor, o prazer concertam todas as emoções...O choro da voz leva-nos às profundezas da alma...faz-nos sentir vivos. A intensidade das palavras e a concordância com a guitarra liberta-nos e prende-nos em sintonia. Não conseguimos deixar de ouvir...de continuar...de viver. Concordo contigo, merece ser ouvido e sentido. Não é para esquecer, é para investir e acreditar no seu talento... e já agora, sobre a TIME II, eu sei, não faz parte do EP...mas faz parte dos concertos, é intensamente deslumbrante, enterlaça sentimentos e emoções. É criadora de êxtase interior...a sua combinação de sons e silêncios penetra na pele, nos órgãos, nas entranhas...
Puxa!!! sem dúvida a música eleva os sentimentos mais profundos do ser humano. Defendo que a música é a mais nobre das artes, porque é a que consegue o efeito espantoso de ser a mais afastada da razão discursiva, sem perder o alcance cognitivo...
E as letras são poemas magníficos...
Parabéns ao NOISERV!!!
Eu
17-04-2006
Mesmo que nunca tenha lugar numa telenovela. Noiserv será sempre Noiserv, "se é para apaixonar, apaixonamo-nos".

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Dica:08-09-2010
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