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«Quando Deus esquece alguém, é para sempre»

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 Literatura  |

Os Homens Esquecidos de Deus

 Albert Cossery, 1940

 

 

Histórias marginais onde pululam filhos de cães e filhos de porcos. Temos a rua da Mulher Grávida, o engomador e Zouba, o carteiro malandro que teima em roubar o sono e a preguiça aos desgraçados. Há bolinhas de haxixe e estômagos com as paredes coladas. Os pedaços de metal são desumanos: ninguém merece estar privado de droga num mundo miserável. O pensamento reduz-se à nulidade: as perguntas têm respostas mas as respostas não interessam a ninguém e assim é que está bem. Mães berram com os filhos na rua da Mulher Grávida para que todas as pessoas de má fé fiquem a saber que elas educam os filhos. Lixo espalhado por todo o lado, miúdos a saltar nas poças de urina. A fome desencadeia a revolta dos varredores que decidem fazer greve e o barbeiro inspirado pelo motim decide matar a mulher. «Os esfomeados só sonham com pão». Um pai tem um filho para o ajudar a partilhar a miséria: dois pares de ombros equilibram-na melhor. Certeza há só uma: Deus esquece os pobres e quando os esquece é para sempre. Saciar a fome é o único desejo a que se permitem. A cidade sofre por albergá-los e a civilização sofre por vê-los. Chamam-lhes ladrões se a sua persistência em viver é excessiva e mendigos se abandonarem os corpos putrefactos e nauseabundos aos cubículos da cidade. Os vizinhos não têm inveja da miséria dos outros, o importante é manter um nível médio de desgraça. Mas desenganem-se aqueles que acham que na mendicidade não existem princípios! Repelência, mutilações corporais, doenças contagiosas e incuráveis são algumas das qualidades essenciais para se ter sucesso na arte de pedinchar. Na escola de mendigos ensinam as crianças a agarrarem-se aos clientes até à morte, com dureza e tenacidade. «O futuro está nas latrinas públicas».

 

Albert Cossery, filósofo da preguiça, instalou-se num quarto em Paris em 1945 e, desde então, nunca mais saiu de lá. Todas as histórias dos seus livros se desenrolam nos bairros pobres do Cairo onde o haxixe, o sono, o escárnio, a miséria extrema, o despojamento e a sociedade repressiva são temas frequentes. As personagens, «homens esquecidos de Deus», são oriundas das camadas socialmente mais baixas: mendigos, prostitutas, chulos, saltimbancos, ladrões…

 

Os Homens Esquecidos de Deus é composto por cinco pequenas histórias comoventes e dramáticas, escritas com uma dose recomendada de escárnio e humor acutilantes.

 

A Antígona é a responsável pela edição e tradução dos oito livros de Cossery e ainda um outro de diálogos de Michel Mitrani. Deste último (Conversas com Albert Cossery) destaco um excerto que pode resumir toda a filosofia Cosseriana: «Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata pois de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores mais tempo tens para reflectir.»

 
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Dica:31-07-2010
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