Música
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Éramos Assim
Boitezuleika, 2005
Quando a obra é bem conseguida, há que dizê-lo tacitamente.
Sem subterfúgios. Éramos assim é
muito bom tecnicamente e, se utiliza um single que não muito tem que ver com o
resto do trabalho para o fazer chegar às pessoas, quase dissimuladamente, é
para logo depois as cativar. Com algo inesperado, sim. Mas para melhor. O
(famigerado) Cão Muito Mau não
espelha o disco e quem vem por ele estranha. Mas quem vem (também) pelo gosto
da descoberta e da música, não se queixa e até abre um sorriso de largura
considerável.
É um disco português, pois claro, e nota-se – podem
nomear-se os mais diversos projectos, e fá-lo-emos sem qualquer receio. Vem de
uma escola de bandas da década de 90 lusa: esquemas de composição deliciosos de
uns Belle Chase Hotel, Clã ou Ornatos Violeta (donde poderíamos extrapolar para
o campo internacional, ou mesmo voltar na história da pop portuguesa, mas
manteremos a coisa simples). É aliás em Manel Cruz que se funda uma grande quantidade de
novos artistas – vocalistas e letristas – que começam a vislumbrar-se um pouco
por todo o lado.
Os Boitezuleika não se fizeram rogados e enfiaram-se na
árvore genealógica. Nesse mesmo ramo. A diferença em relação a todos os outros
que há tempos andam a tentar – nesse e noutros ramos – foi que não tentaram
sobrepor-se a nenhum dos nomes-referência: com mestria, imaginação,
criatividade e samba construíram um mundo próprio, com ornamentos certos, nem
demais ou menos, onde cada peça encaixa perfeitamente na outra, com estilo e
bom-gosto. Mas é mais: jazz, rumba, salsa, morna, bossa-nova – tudo subtil e
sublimemente embrulhado num disco, delicioso tema a tema: «tu não és uma flor, és uma floresta».
Éramos assim é um
disco de importante valor no panorama da música portuguesa, mesmo que só como
transição para o próximo trabalho dos Boitezuleika. Falando do ramo de há
pouco, é fantástica forma de saltar de Quinteto Tati para o novo de JP Simões,
a solo. É um meio de notável força, desprendida, se necessário, das duas
pontas. Não se faça confusão: são coisas distintas – este e os projectos de JP
Simões. Mas é também verdade que há aqui um sentido de história e progresso:
não é um salto, mas um degrau firme de música.
Sérgio Godinho é uma influência bem salteada e nem sempre
perceptível. Está como se quer: é de todo intrínseco à música. Primeiro conhecimento,
depois paixão. Assim é na música. (Só na música?) Ou teria que ser. E aqui é-o;
assim o fazem os Boitezuleika. São vários os temas a brotar como flores desta
banda do Grande Porto: Cidade de
Marionetas, Marcha Sambada, Tóxicoprostituta, É o Ego ou Adoro o Perigo são
só exemplos. Depois há, ainda, a volta a 1992, sob as palavras de António Lobo
Antunes: Bolero do Coronel Sensível que fez
Amor em Monsanto, originalmente na voz de Vitorino. Belíssima escolha para
cover. Que arrebata e remete de volta ao início das paixões.
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